"Isso, isso isso!"
Nome original: Chavo
Idade: 8 anos
Interpretado por: Roberto
Gómez Bolaños "Chespirito"
Dublado por:
Marcelo
Gastaldi (Maga
- TVS/SBT)
Sérgio
Galvão (BKS/Parisi
- CNT/Gazeta)
Cassiano
Ricardo (Gota
Mágica - SBT)
Tatá
Guarnieri (Studio
Gabia - DVDs
Amazonas Filmes)
Tatá
Guarnieri (Herbert
Richers/Álamo - SBT)
Antes
eu pensava que nunca tivera um pai. Mas depois meus
amigos me explicaram que isso
não era possível;
que quem nasce é porque antes seu pai se deitou
com sua mãe. Acontece que não conheci meu
pai. Ou seja, mal ele se deitou com minha mãe,
foi embora.
Minha
mãe sim, eu conheci, mas não muito.
Como ela tinha que trabalhar, todos os dias me levava
para uma casa que se chamava creche, e ali eu ficava
até que ela voltasse pra me pegar. O chato é que
a coitada chegava muito cansada de tanto trabalhar, e,
quando dizia que vinha pra pegar seu filho, perguntavam: "Qual é?".
E ela respondia: "Não sei, um desses.".
E entregavam a criança que estivesse mais à mão.
E, claro, nem sempre era a mesma criança.
O
que significa que o mais certo é que eu não
seja eu.
Um
dia minha mãe não
passou pra me pegar.
E
nos outros dias também não.
Nosso
Chavinho no episódio do julgamento!!
Apesar
de tudo, eu gostaria muito de ter uma mãe.
Há tantas, que nem sei por que não tive
a sorte de ter uma, mesmo que não fosse a melhor.
Claro que tem muitas mães que têm vários
filhos, mas existem outras que têm no máximo
um, como é o caso de Dona
Florinda. Ou seja, Quico tem
uma mãe inteirinha só pra ele. E o
boboca se porta mal e a desobedece. Eu digo a ele pra
não ser burro, pra não desperdiçar
isso.
Também gostaria de ter um pai, mas não
como Seu Madruga,
que é o pai da Chiquinha, porque
Seu Madruga bate muito.
Bem, Dona Florinda também bate muito, mas não
em seu filho... Ela só bate no Seu
Madruga.
Seu
Madruga é muito burro. E dizem que os filhos
saem iguais aos pais, mas não é verdade,
porque a Chiquinha
não é burra. Mas ela é igual a seu
pai na preguiça, por isso não gosta da escola.
Todas
as crianças têm um cantinho especial,
como o Chaves tem o seu barril.
Eu
também queria ter uma tia.
Ou um cachorro.
Ou alguma coisa...
Lembro
que há muito tempo me levaram pra morar
numa casa que era um orfanato, onde todas as crianças
eram órfãs.
A
principal responsável de lá era a senhora
Martina, que estava sempre de mau humor e batia em todas
as crianças. Uma vez até tirou sangue do
meu nariz e depois se irritou porque minha roupa ficou
toda manchada de sangue, e depois ainda me castigou me
deixando um dia sem comer.
No orfanato tinha um menino maior do que eu, chamado
Cente (de Vicente), que era meu melhor amigo.
O
chato é que Cente vivia
doente.
E
assim foi, até que
ele morreu.
Às vezes iam ao orfanato uma senhoras para olhar
as crianças. Depois escolhiam as que mais gostavam
e as levavam pra morar com elas. Eu tinha muita vontade
de que me escolhessem, mas elas sempre escolhiam os mais
bonitos; ou seja, nunca saí.
Depois,
como o tempo passava e a senhora Martina batia cada
vez mais na gente, pensei
que o
melhor seria fugir
do orfanato. Mas nunca me ocorreu como fazer isso. Isso
acontecia porque eu era burro e, portanto, me faltava
imaginação para ter boas idéias.
Então tive dois motivos pra ficar triste: um,
o fato de não poder escapar; e dois, perceber
o quanto eu era burro.
Um
dia, fiquei tão triste que comecei a chorar,
e a senhora Martina me perguntou por que eu estava chorando.
Não tive outra escapatória senão
confessar que queria sair dali. Então ela me disse: "Se
tivesse dito antes...", e abriu a porta.
Caminhei
por muitas ruas que não conhecia. Não eram
ruas muito bonitas, como as que aparecem nos filmes da
televisão; mas também não eram muito
feias, como as que também podemos ver na televisão.
O
tonto do Chaves experimentando o ferro pra ver se tá quente
Mas o pior de tudo era a fome que eu tinha.
Porque
nesta vida o mais importante é comer.
Por
isso entrei no mercado, onde havia muitas coisas
de comer. O chato é que eu não tinha dinheiro
pra comprar essas coisas. Então pensei em roubar
algo, mas me lembrei que roubar era pecado, ainda mais
quando a coisa pertence a outra pessoa. Foi por isso
que pedi que me dessem alguma coisa, e uma senhora me
deu de presente duas cenouras. Mas o melhor foi no dia
seguinte, quando um senhor me deu um sanduíche
de presunto. Não deve ter nada mais gostoso nesta
vida!
Um
dia, caminhando, cheguei a um beco muito escuro e
comecei a ficar com medo. Então comecei a andar
mais rápido, mas a única coisa que consegui
foi chegar a outro beco que estava ainda mais escuro
que o anterior, e senti mais medo ainda. Continuei correndo
até que cheguei a um lugar que tinha um pouco
de luz. Era uma espécie de terreno baldio, onde
tinha muito lixo e muitas sobras. Também havia
cachorros procurando coisas no lixo.
E
também tinha crianças.
Eram uns oito ou nove meninos.
Quando
me aproximei deles, a primeira coisa que me chamou a atenção
foi que um dos meninos estava pintando o rosto. Ele sabia
fazer esse negócio de jogar três bolinhas
para cima sem que nenhuma caísse. Segundo ele me
contou, fazia isso numa esquina próxima de um sinal
de trânsito que fica muito tempo no vermelho, o
que faz com que os carros fiquem parados. Aí, ele
e outro menino ficavam fazendo isso, jogando bolinhas
para cima, pra depois ganhar umas gorjetas.
Ilustração
feita por Chespirito para
o livro: "El diario de Chavo Del Ocho"
Os
outros meninos não falavam quase nada e sequer
me perguntaram quem eu era ou de onde vinha. Uns ficavam
só me olhando, outros diziam cosias que eu não
entendia. Eu não sei por que, mas comecei a ficar
com um medo danado.
Pouco
depois, um deles começou a fumar e em seguida
passou o cigarro para o menino que estava ao lado dele.
Este deu apenas uma tragada e o passou adiante. E os
outros fizeram o mesmo, até que o cigarro chegou
a mim. Então, dei uma tragada, mas me deu uma
tosse horrível. Uns começaram a rir de
mim, enquanto outros me olhavam como se quisessem me
perguntar alguma coisa. Mas não me perguntaram
nada, só que me tiraram o cigarro.
Eles
também tinham uma bolsa de plástico
com uma coisa dentro; algo que cheirava como as oficinas
mecânicas onde se pintam carros. Mas eu não
tive muito tempo pra cheirar, porque neste momento chegou
um menino dizendo que outro havia batido as botas. Ou
seja: estava dizendo que ele estava morto, e aí todos
saíram correndo.
Fui
o último a chegar, mas também vi o
menino ali no asfalto, sem se mover e coberto de sangue.
Mas eu não quis me aproximar muito, porque comecei
a sentir uma coisa muito estranha; quer dizer, como se
eu estivesse com vontade de vomitar. Mas vomitar o que,
se eu não tinha comido nada?
Foi
aí que me deu muita vontade
de sair correndo. E foi o que fiz: corri e corri, sem
parar pra nada.
Nunca
mais voltei a ver esses meninos. Quer dizer, sim,
voltei a vê-los, mas só em
sonhos. E sempre que isso acontece, acordo ofegante
e como se estivesse
com muito frio.
Um
dia, eu estava indo por outra rua que não conhecia,
quando começou a chover muito. Aí entrei
numa vila...
"Zás!
Zás!"
Primeiro,
fiquei na casa número
8, onde vivia uma senhora muito velhinha, que disse
que eu parecia
muito com um neto dela.
Esta
velhinha da casa 8 tinha mãos
que tremiam muito, o que impedia que ela fizesse muitas
coisas. Por
isso, eu a ajudava.
Mas
ela sempre dizia: "Deus há de me fazer
o milagre de, ao menos uma vez, parar de tremer minhas
mãos.".
Até que um dia cheguei à casa e percebi
que suas mãos não tremiam mais, e ela estava
toda quietinha, quietinha.
Acho que no dia seguinte a enterraram.
Pouco
depois, chegou outra pessoa para ocupar a casa 8
e tive de sair dali. Porém, como eu já tinha
muitos amigos na vizinhança, um dia me convidavam
pra dormir em uma casa, outro dia em outra. E é assim
até hoje. Porque não é verdade que
vivo num barril, como dizem uns e outros por aí.
O que acontece é que me escondo no barril quando
não quero que percebam que estou chorando. E também
quando não quero ver ninguém. Ou quando
tenho muita coisa pra pensar.
De qualquer jeito, as pessoas se acostumaram a me chamar
de Chaves.
Se
um dia eu ganhar na loteria, a primeira coisa que
eu gostaria de fazer seria me convidar para comer.
Porque nesta vida o mais importante é comer. Porque
se você não come, morre. E se morre, a que horas
vai comer? Por isso, é melhor comer do que morrer.
Eu não tenho certeza, mas acho que a última vez que
mastiguei um pedaço de carne foi quando mordi a língua.
Uma
vez fiquei tão mal que me levaram a um hospital muito
bonito, onde as enfermeiras se chamavam freiras;
e eram tão boas que me davam de comer três vezes
por dia. Mas o chato foi que não fiquei doente mais
do que quatro dias, e rapidinho fiquei bom. Agora
estou esperando ficar doente de novo, pra que eu
possa comer três vezes ao dia de novo. Adaptado do "Diário do Chaves", de
Roberto Gómez Bolaños
DESCRIÇÃO
Trabalhando
no Restaurante de Dona Florinda (temporada de 1979)
Caracterização artística: menino órfão
de oito anos com sardas na cara e sem comida no estômago.
Figurino: calças velhas, largas,
remendadas e desgastadas, presa por tiras de tecido alaranjado
amarradas improvisadamente contornando um só ombro
(esquerdo). Camisa pequena rasgada e também remendada.
Gorro verde quadriculado com viseira e tapa-orelhas.
E grandes botinas pretas gastas (dadas de presente pelo Seu
Madruga), com cadarços amarelos desamarrados.
Enfim, uma roupinha toda remendada, mas que agrada a quem
olhar.
Pertences: Barril. Estilingue. Muita
fé e todas as células do corpo repletas
de esperança.
Personalidade: meigo, inocente, debochado,
genioso e sabe se defender.
Chaves é um menino de oito anos que vive numa
vila junto com os vizinhos mais atrapalhados que existem.
Está sempre com fome e adora brincar. Como toda
criança, não resiste à emoção
de pegar um brinquedo e viajar no mundo de seus sonhos
e de sua imaginação. E que imaginação,
aliás! Chaves é órfão, mas,
segundo ele, tem pais sim... só que estes ainda
não lhe foram apresentados.
Nos
anos 90
Ninguém sabe ao certo qual é o seu nome
ou onde ele vive. Chaves está sempre dentro de
seu barril, mas diz que vive na casa número oito
- e seu barril seria seu esconderijo secreto. Com quem
ele mora? Só Deus sabe. Todas as vezes que alguém
lhe pergunta com quem vive ou qual é seu verdadeiro
nome, chega alguém e o interrompe no momento da
resposta. Mas apesar de tantos mistérios, uma
coisa é certa: Chaves é muito amável
e contagia a todos com sua alegria e esperança.
Vê em Seu
Madruga o pai que nunca teve (ou que nunca lhe foi
apresentado). Seus melhores amigos são Quico, Chiquinha e Nhonho;
e sua paixão chama-se Paty,
a sobrinha da Dona Glória.
Chaves sempre acerta o pobre Sr.
Barriga com um golpe quando este chega na vila,
mas é sempre "sem querer, querendo".
Quando leva um susto muito grande, Chaves tem um "piripaque":
fica paralisado (sentindo como se sentisse que não
estivesse sentindo nada) e só volta ao normal
quando alguém lhe joga água no rosto.
E por falar em água... Chaves é inimigo
assumido do banho. Mas, depois de uma boa chuveirada,
já confessou que não há nada melhor
do que estar sempre limpo e cheiroso. Chaves é amado
por todos da vila e um exemplo a ser seguido, pois
nos mostra que a felicidade independe dos patrimônios
materiais. O que lhe falta de comida e amparo lhe sobra
de fé e otimismo. Chaves é uma criança
feliz!
O Garoto do 8 é inconveniente, curioso, imprudente
e cansa a paciência dos que vivem com ele. Mas também
é sonhador, sensível e bastante sentimental.
Ele tem um carisma muito especial e com isso ele ganha
o carinho das pessoas que o cercam. Seus esforços
para ser um bom aluno são em vão, já
que ele é um menino muito distraído e que
não se alimenta direito.
Quando o Chaves chora, não faz escândalo.
Ao contrário, chora para dentro, dizendo "pipipipipi..."
e vai se esconder no seu barril, que é para onde
ele sempre vai para encontrar tranqüilidade e privacidade,
pois como toda criança ele tem o seu cantinho especial.
Chaves versão cartum!
Chaves conhece o valor do amor e da amizade. O que ele
mais gosta de fazer é comer (coisa que, no entanto,
é o que ele menos faz). Por ser pobre, não
tem brinquedos e se diverte com pequenas coisas, como
um cabo de vassoura, que ele consegue equilibrar com habilidade.
Também se diverte caçando lagartixas com
seu estilingue. E também caça churruminos,
animais que só existem em sua imaginação...
Sua vontade de viver e seu amor pela vida perante tanta
pobreza e sua situação infeliz é capaz
de despertar a compaixão do mais duro dos corações.
Ele parece ter um anjo da guarda que faz horas extras
de trabalho, protegendo Chaves da crueldade do mundo
e mantendo acesa a chama da esperança. Chaves é assim.
Um menino encantador de quem ninguém sabe nada
sobre sua origem e nem sabe seu verdadeiro nome e a que
todos simplesmente chamam de Chaves do 8.
Bordões:
"Foi sem querer querendo..."
"Ninguém tem paciência comigo."
"Isso, isso, isso..."
"É que me escapuliu."
"Tá bom, mas não se irrite."
"Que burro, dá zero pra ele!"
"Zás, zás..."
Choro: "Pipipipipipipi..."
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