Em 1928, Elsa Bolaños Cacho Aguilar engravidou
pela segunda vez do marido Francisco Gómez Linares.
O casal já tinha um filho de dois anos, também
Francisco. A veia artística sempre se sobressaiu
na família dos Linares. Francisco Gómez
era um famoso pintor e desenhista. Ilustrava importantes
jornais e revistas de sua época. Nos anos 20, ganhou
fama por pintar um quadro da esposa de Emilio Portes Gil,
então presidente do México. Francisco Gómez
também gostava de atuar, mas só o fazia
às escondidas... Naquele tempo, atores eram muito
mal vistos pela família e pela sociedade (hoje,
de certo modo, ainda são, mas nem se compara, claro).
Em 1935, Seu Fransisco morreu precocemente, deixando a
mulher e três filhos ainda crianças: Francisco,
Roberto e Horácio, respectivamente com oito, seis
e cinco anos de vida.
Cadê as anteninhas?
"Seu papai foi pro céu", disseram
a Roberto e a seus irmãos. "Eu não
entendia muito bem, ainda que me explicassem",
lembra Chespirito. E conta que, onde moravam, havia
um pequeno jardim na frente de casa. Ali, ele ficou
meses esperando o seu pai voltar. Até que se
deu conta de que não seria assim.
Bolaños de umbigo de fora!
Aos 32 anos e com três filhos pequenos, Elsa
Bolaños garantiu o pão de cada dia com
muito trabalho e esforço redobrado. Conseguiu
construir um pequeno edifício de dois andares:
o térreo com áreas comerciais e o andar
de cima, com três apartamentos residenciais. Foi
morar com seus filhos em um deles e alugou os outros
dois. Ou seja, Chespirito viu sua mãe cobrando
aluguel dos inquilinos. Será que isso o influenciou?
Será que alguém chegou a dever 14 meses
de aluguel à Dona Elsa? É provável,
pois, num determinado momento, o dinheiro não
foi suficiente e ela teve que vender tudo. Para piorar
a situação, o banco ainda ficou com boa
parte do imóvel. E a família Bolaños
foi morar numa das oficinas comerciais.
No colo do pai, Francisco,
e com o irmão Francisco
"Minha mãe colocou uma cortina bem baratinha
para cobrir a construção de ferro.",
conta Roberto. "A gente tomava banho com água
fria... Que era horrível! Não tinha energia
elétrica... Mas minha mãe era tão
sensacional que eu nunca me dei conta de que éramos
pobres. Nunca me comprou uma bicicleta ou um trem elétrico,
mas nunca me faltou uma bola. Eu fui muito feliz. Ela
se matava de tanto trabalhar, disso eu fiquei sabendo
depois."
Certa vez, em algum Natal, Roberto e seus irmãos
foram procurar presentes na árvore. Mas nada
havia. Depois, foram para a casa da tia-avó,
Eva, que vivia a uma quadra e meia, com esperança
de encontrar algo para eles. Eva foi dura bem direta:
"Papai Noel não existe. Era seu pai. E como
agora ele não está, não há
mais dinheiro e, portanto, também não
há brinquedos." Elsa Bolaños interveio:
"Como que não há? Venham!".
Levou os filhos a um centro comercial e comprou pequenos
brinquedos. "Minha tia Eva ficou uma fera. Disse
que estávamos gastando um dinheiro que minha
mãe não podia gastar, pois estava juntando
para comprar um terreno. Essa era minha mãe!",
emociona-se Chespirito. Essa doce história de
Natal e de família deu origem ao "Poema
a mi Madre", que Chespirito escreveu em homenagem
à sua tão querida mãe e diz assim
no final: "...para mim, mãezinha, você
é a Noite Boa." Florinda, mulher de Chespirito,
chora até hoje quando lê esses versos.
Com
os dois irmãos e a mãe Elsa
Elsa Bolaños sempre garantiu também a
educação de seus três filhos. Ela
mesma tinha boa formação. Já tinha
vivido em Nova Iorque durante a Revolução
Mexicana e falava inglês perfeitamente. Trabalhava
como secretária bilíngüe na empresa
Petróleos Mexicanos.
Roberto Gómez Bolaños concluiu o segundo
grau e matriculou-se no curso de engenharia da Universidade
Nacional Autônoma do México. Estudou alguns
anos, mas não chegou a concluir. Ele conta que
nunca foi um aluno muito aplicado, mas também
não era nível "Quico". Isso
até descobrir as letras e apaixonar-se por elas.
Por isso, foi contratado pela agência de publicidade
D'Arcy quando tinha apenas 22 anos. Lá, rapidamente
se destacou por sua mente criativa. E começou
a escrever programas para rádio e televisão
durante os anos 50. Seu texto fazia rir e isso chamou
a atenção da emissora de TV TIM (Televisión
Independiente de México). Com o fim da segunda
guerra mundial em 1945, os programas de comédia
despontaram dos anos 50 e 60, no rádio e logo
no início da era da TV. Rir era a grande moda
da época! No México, as grandes emissoras
eram a TV TIM (Canal 8) e a tal de Televisa (Canal 2).
Mas o 8 viu Roberto primeiro!
Roberto
também
foi futebolista, mas não vivia descendo lenha...
Aos 28 anos, o jovem Roberto virou "Chespirito"
ao escrever seu primeiro brilhante roteiro para cinema
("Los Legionarios"), que ganhou vários
prêmios. A partir daí, não parou
mais de escrever: durante úma década,
até 1967, escreveu, em média, três
filmes por ano. Alguns roteiros já anunciavam
o que estava por vir. Observem: "El dolor de pagar
la renta" (A dor de pagar o aluguel, Seu Madruga
que o diga!); "Dos locos en escena" (Dois
loucos em cena, já revelando a admiração
do roteirista por O Gordo e O Magro); "Los Astronautas"
(que vão pelo céu capturando os planeeetas...);
"Dos tontos y un loco" (total: Três
Patetas); "Los invisibles" (Os invisíveis,
será que tomaram a bebida de horrível
sabor com os três pêlos de gato ou beberam
verniz invisibilizador?); "Buenos dias Acapulco"
(ou seria Guarujá? Boa noite, vizinhança!);
"La batallha de los pasteles" (A batalha dos
bolos, comédia pastelão na cabeça,
ou melhor, na cara!); "Detectives o ladrones"
(Detetives ou ladrões, não é que
ele adora esse tema?).
No dia de sua formatura
Pelo humor marcante contido nos roteiros, em 1960 a
TV TIM contratou Chespirito, que escreveu os dois programas
de maior audiência da emissora: "Cómicos
y Canciones", com os famosos comediantes Viruta
e Capulina, e "El Estudio de Pedro Vargas".
Em 66, o então mais consagrado comediante mexicano,
Mario Moreno, o Cantinflas, convidou Chespirito para
escrever o roteiro do programa que se chamaria "El
Estudio de Cantinflas", aproveitando o sucesso
do "El Estudio de Pedro Vargas". Infelizmente,
o projeto não foi adiante por causa de problemas
com o patrocinador e, como diria o Quico, "não
deu".
E se, para o Brasil, 1968 foi "o ano que não
acabou", para Chespirito, tampouco. Enquanto a
ditadura envergonhava o Brasil, no México, Chespirito
conseguia o seu primeiro espaço próprio
na televisão: "El ciudadano Gómez".
Desde então nasceram alguns personagens e diálogos
que ficariam para sempre marcados na história
do humor. Até então, Chespirito não
pensava em atuar. No entanto, felizmente e por falta
e recusa de bons atores, ele mesmo foi obrigado a entrar
em cena. E nem ele mesmo contava com sua astúcia.
Saiu-se tão bem que começou a inventar
personagens que ele mesmo interpretaria - e com o maior
prazer. Com isso, o espaço de seu programa foi
só aumentando. E a audiência? Também.
Aumentou tanto, mas tanto, que Chespirito "estourou".
Nos anos 60, sua estréia na TV, com Viruta e Capulina
O pequeno grande escritor, agora já também
ator, ganhou meia hora só para ele todos os sábados
(precise ou não precise!), dentro do famoso programa
humorístico "Sábados de la Fortuna".
Além de "El ciudadano Gómez",
Chespirito interpretou pela primeira vez um personagem
criado por ele e para ele: Doutor
Chespirito Chapatin, que estreou no quadro "Los
supergenios de la mesa cuadrada" (Os
Supergênios da Mesa Quadrada, parodiando
o clássico "Os Cavaleiros da Távola
Redonda"). Los
supergenios e Dr.
Chapatin fizeram tanto sucesso que conquistaram
o público para sempre.
Com o Polegar Vermelho
No princípio, Dr.
Chapatin não era médico (ele ainda
teria muitos anos de vida para estudar medicina), mas
sim um doutor universitário que participava de
uma mesa de crítica aos grandes intelectuais
da época, com quem sempre brigava. Para interpretar
os demais personagens, Chespirito escolheu a dedo três
atores: Ramón
Gómez Valdés y Castillo, Rubén
Aguirre Fuentes e María
Antonieta de las Nieves (a Chiquinha).
Ramón
era irmão mais novo de Tintán Valdés,
um dos maiores comediantes mexicanos do século
XX. Chespirito escrevia roteiros para os filmes de Tintán,
nos quais Ramón
também atuava. Em 1968, Ramón
já tinha 20 anos de experiência em filmes
e já era reconhecido como grande ator de cinema
mexicano. Chespirito, sempre bom observador, descobriu
o talento de Ramón
para a comédia e convidou aquele que seria o
eterno Don
Ramón, ou Seu
Madruga, para os brasileiros. Nos Supergenios,
ele interpretava um bêbado. Nem precisa dizer
o quanto isso ficou engraçado, né?
Galã! Boneco!
Rubén
Aguirre era locutor de rádio, dono de uma
voz invejável. Também era ator e se destacava
nas radionovelas. Foi o primeiro de todos a atuar com
Chespirito, antes ainda de Supergenios.
A altura exagerada de Rubén
fazia um bom contraste com a baixa estatura de Chespirito
e isso funcionava bem para a comédia. Por isso,
Chespirito não pensou duas vezes em convidar
Rubén
para atuar em Supergenios
como o professor
Rubén Aguirre Girafales! Isso mesmo, podemos
dizer que o professor
Girafales foi o primeiro personagem de Chaves
a ser criado. A partir daí Rubén
e Chespirito formariam uma dupla que se consagraria
na TV. O Alto e O Baixo mais famosos do mundo, no mesmo
estilo de O Gordo e O Magro.
Filmagem dos anos 70
A quarta atriz de Supergenios
era uma jovem de apenas 18 anos que sonhava em ser vedete.
Quando pequena, digo, quando menor ainda, iniciou a
carreira artística dublando personagens famosas
de desenho animado e outras atrizes mirins americanas.
Sua voz chamou a atenção de Chespirito.
Ela queria atuar em novelas como a mocinha que fazia
o público chorar, mas ele a tirou deste caminho
ao convidá-la para fazer humor. Baixinha e talentosa,
ela logo fez o público rir e se encantar. Apresentava
os Supergenios
e lia as cartas do programa. E, a partir daí,
formou uma dupla imbatível com Chespirito, principalmente
com o surgimento de la
Chilindrina, a Chiquinha
(1971), personagem que a consagrou mundialmente e que
ela nunca mais deixou de vestir.
1970. Com o enorme sucesso de suas apresentações,
Chespirito ganhou um programa próprio na TV TIM:
CHESPIRITO, toda segunda-feira, às
20h - horário nobre! Em uma hora, ele podia fazer
o que quisesse. Estava livre para criar os mais variados
quadros. Escrevia todos e atuava em todos. Num belo
dia, escreveu o roteiro de um super-herói, ou
melhor, um anti-herói, atrapalhado, desengonçado
e fracote. E abriu testes para ver quem o interpretaria.
Os maus atores não deram conta e os "bons"
atores simplesmente recusaram o papel. Sem mais opções,
o próprio Chespirito vestiu-se pela primeira
vez de Chapulín,
o Chapolin Colorado.
Filmagem dos anos 80
O resultado foi tão bom que, um ano depois,
Chespirito experimentou também vestir-se de criança.
Aos 42 anos, interpretou pela primeira vez um menino
de oito. O menino continuou com oito, mas Roberto Gómez
Bolaños fez 43, 44, 45... 50... 55... 60... Vinte
e cinco anos se passaram até que o tempo impôs
um limite e ele parou de interpretar o Chaves,
só em 1992. Se não fosse pela idade, Chespirito
poderia viver o garoto até hoje, porque o personagem
Chaves
(e tudo o que o envolve) é parte de uma minúscula
lista de realizações humana imortais.
E o Chapolin?
Também.
Os esquetes de Chaves
e de Chapolin
destacavam-se e brilhavam no programa Chespirito.
Era tanto brilho que a TV TIM percebeu o quanto aquilo
poderia dar retorno. E tanto o Chapolin
quanto o Chaves
ganharam um seriado próprio cada um, em 1973:
El Chapulín Colorado
e El Chavo del Ocho (O Chaves
do Oito). Cada programa com meia hora de duração,
completando a hora disponível às segundas-feiras,
às oito da noite no Canal Oito! Aliás,
o programa do Chaves
chama-se oficialmente El Chavo del Ocho
por causa do Canal Oito e não porque o moleque
supostamente morava na casa de número oito. Essa
história foi criada depois para explicar o título,
já que, com a compra da TV TIM pela Televisa,
a série passou a ser exibida no canal 2.
Filmagem dos anos 90
Os dois programas foram conquistando o público
e ganhando cada vez mais espaço na programação.
Já nas mãos da Televisa, a poderosa emissora
mexicana, os seriados começaram a ser exportados
para outros países da América Latina.
E o sucesso foi absurdo! De maneira que, se a Televisa
é uma empresa riquíssima hoje, muito desse
ouro se deve a Chespirito. Até 1979, quando os
programas chegaram ao fim, já eram vistos e aplaudidos
em dezenas de países. E uma curiosidade digna
de Guiness Book: em todos os países por onde
andou, os programas ficaram pelo menos uma vez em primeiro
lugar de audiência, qualquer que fosse a emissora.
Homenagem da Televisa aos 30 anos de Chaves e Chapolin - 2000
O que vale ressaltar é que o Brasil até
então não conhecia Chaves
nem Chapolin. Os dois já eram
sucesso e fenômeno de audiência em toda
a América Latina quando chegaram ao Brasil, bem
tarde já, só em 1984... Ou seja, dez anos
antes, as séries de Chespirito já estouravam
em vários países de língua hispânica.
Ao contrário do que muita gente pensa, portanto,
Chaves não é um programa
dos anos 80 e sim do início dos 70! Quem acha
que 20 anos de exibição de Chaves
no Brasil é muita coisa, deve aprender que, nos
demais países latino-americanos, ele passa há
mais de 30 anos - sempre liderando audiência.
Um fenômeno mundial só comparado aos grandes
clássicos do humor encabeçados por Charles
Spencer Chaplin.
Com os filhos Graciela, Cecilia, Paulina, Teresa, Marcela e Roberto Gómez
Além da vogal "o", a única
diferença do Chaplin para o Chapolin
está na nacionalidade. Pelo simples fato de Chespirito
ser latino-americano, ele não tem o mesmo reconhecimento
de Charlie Chaplin, Laurel & Hardy (O Gordo e O
Magro), Os Três Patetas e Woody Allen. No entanto,
não se pode reclamar, pois as senhoras estatísticas
estão provando, hoje, que Chespirito é
mais um grande clássico do humor mundial. Ele
ultrapassou qualquer grande homem da comédia
latino-americana e foi o único que chegou perto,
em números comprovados (não só
de audiência, mas também de vendas dos
mais variados produtos e respectivos lucros), dos maiores
nomes do american way of humour. Chespirito ultrapassou
os mexicanos Cantinflas e Tintán Valdés.
Foi muito além dos brasileiros Mazzaropi, Os
Trapalhões e Chico Anysio. E viajou o mundo.
Chaves já foi dublado em idioma
alemão, russo, japonês, coreano, árabe,
italiano... Chaves não é
apenas o programa mais reprisado do Brasil, mas essas
reprises de 20 anos sempre ficam ou no primeiro ou no
segundo lugar do Ibope.
Com os netos e o restande da família
O humor de Chespirito é puro, clássico
e atemporal. Não é datado. Não
sai de moda. Um estilo de humor que não faz mal
a ninguém. Ele sempre cuidou bem disso. Considera
que as pessoas necessitam de diversão da mesma
forma que necessitam de comida. E assim como devem se
alimentar de coisas que não fazem mal, também
devem se divertir com coisas saudáveis. Chespirito
sempre usa essa comparação, com razão
de seu orgulho, pois é enorme a responsabilidade
de um homem que é visto por milhões de
pessoas de diferentes países, culturas, idades...
Certo dia, o presidente da Televisa, Emilio Azcárraga,
ao se dar conta de que Chespirito era primeiro lugar
de audiência em todos os países latino-americanos,
foi ter com ele, bem sério: "Olha, Roberto...
Um ponto de audiência equivale a um estádio
Azteca e meio, com capacidade para 100 mil espectadores.
Dez pontos são 15 estádios Azteca. Semanalmente,
300 milhões de pessoas te vêem. Não
se sente orgulhoso? Mais que orgulhoso, deve sentir
um medo terrível, porque tem responsabilidade
sobre 300 milhões de pessoas. Você sabe
o que eu quero dizer: temos uma arma poderosíssima
nas mãos."
Chespirito colecionou prêmios e troféus durante sua carreira
Ainda no final dos anos 70, Chespirito levou para o
cinema o filme que bateu todos os recordes de bilheteria:
"El
Chanfle", que teve até continuação,
"El
Chanfle II". Bolaños era autor, diretor
e ator de seus filmes, que contavam com o mesmo famoso
elenco da TV, embora nada tivessem a ver com as séries.
Chespirito nunca pensou em levar Chaves
e Chapolin
para o cinema, pois simplesmente julgava o formato incompatível.
Outros sucessos de bilheteria foram: "Charrito",
"Don
Ratón y Don Ratero" e "Música
de viento".
Na década de 90, com as últimas gravações
do programa Chespirito, pôde
dedicar-se mais ao teatro. Em 1992, escreveu e dirigiu
a peça "11
y 12", na qual, é claro, também
atuava como protagonista ao lado de Florinda
Meza. Resultado: foi o espetáculo teatral
que ficou por mais tempo em cartaz no México:
mais de oito anos consecutivos! Ainda nesse período,
Chespirito produziu dezenas de filmes mexicanos, ocupando
o cargo de diretor geral da Televicine, empresa de cinema
do Grupo Televisa.
Hoje, Chespirito, um homem tímido - sim, ele
sempre superou sua timidez, mas sem nunca deixar de
ser tímido -, escreve uma autobiografia, contada
com muito humor e crítica. No livro, ele conta,
por exemplo, o que aconteceu em 1977 no Chile, quando
ele e sua equipe foram recebidos pelo público
bem ao estilo "beatlemania". Do aeroporto
até o hotel, milhares de pessoas desesperadas
seguiam os atores querendo apenas vê-los de perto.
A apresentação, em Viña del Mar,
lotou duas vezes (manhã e tarde) um estádio
de futebol com capacidade para 80 mil pessoas.
Em sua biografia, Bolaños também se recorda
do contato que teve com presidentes latino-americanos.
Um deles, Gustavo Díaz Ordaz Bolaños Cacho,
que já foi presidente do México, era primo-irmão
de sua mãe, mas a relação com o
tio político não era das melhores.
Foto
oficial do casamento com Florinda Meza - 2004
"Conheci Carlos Ménem quando nem eu sabia
quem era. Tiraram uma foto nossa em uma estação
de rádio ou TV. E ele disse: 'Essa fotografia
vai estar na Casa Rosada'", conta Chespirito. "Seus
amigos disseram 'Ah, sim, acredito...' Naquela época,
nem era candidato de seu partido. Até que chegou
a ser presidente da Argentina. Nunca voltei a vê-lo,
mas uma vez mandei um recado perguntando se a foto estava
lá na Casa Rosada. Ele me mandou dizer que sim...
Mas não sei".
Na Colômbia, Chespirito e seu elenco fizeram
uma enorme marcha pela cidade de Bogotá, convidados
pela esposa do então presidente Ayala. "Foi
uma marcha que durou das nove da manhã até
as sete da noite. A gente ficou em caminhões
de bombeiro. Era tante gente... Parecia uma marcha política,
uma revolução do povo. Todos adoradores
de Chaves!".
Gómez Bolaños apoiou abertamente a candidatura
do presidente mexicano Vicente Fox, inclusive gravando
spots pedindo votos. Ainda que não sejam amigos
próximos e tenham se visto apenas em três
ocasiões, Chespirito acredita e confia em seus
projetos, apesar das críticas. Acredita em sua
honestidade e admira que ele seja contra o aborto. "Não
gosto de política, mas com pessoas como Fox,
sinto outra coisa. Não digo que são perfeitos,
mas com certeza têm boas intenções".
Lançamento
do livro "El Diario de El Chavo Del Ocho" - 2005
Ao falar de Florinda
Meza, seus olhos se iluminam. "Acredito que
me apaixonei imediatamente por ela, mas me detive no
início. Primeiro, porque era casado, algo fundamental
e, segundo, porque odeio a raça de diretores
e produtores que oferecem papéis a pessoas em
troca de cama - e isso existe muito! É a pior
coisa do mundo. Então, eu me contive. Por uns
seis, sete anos, até a nossa união".
Chespirito e Florinda
estão juntos há mais de 25 anos, sempre
apoiando-se em seus inúmeros projetos. Ele não
esconde sua intensa admiração por ela:
"uma mulher inteligente e culta e que, além
de tudo, dança e canta muito bem!" . Com
ela, ele se sente à vontade para falar de tudo,
até de futebol. "A partir de Florinda,
fui sempre fiel. Não me falta nada".
Lançamento de sua autobiografia
"Sin
Querer Queriendo - MEMORIAS" - 2006
Ele sempre foi muito discreto com relação
a seus outros "amores", por assim dizer. Ninguém
sabe muita coisa a respeito. No entanto, foi com Graciela
Fernández, sua primeira mulher, que ele teve
todos os seus seis filhos: um filho, Roberto Gómez
Fernández, e cinco filhas. Muitos jornalistas
até hoje insistem no erro de que os filhos de
Chespirito são também da Dona
Florinda, quando na verdade esta nunca teve filhos.
Em certa ocasião, 'Radar', o suplemento
de domingo do jornal argentino 'Página 12', publicou
uma reportagem sugerindo que Roberto teve um caso no
passado com ninguém menos que Marilyn Monroe.
A evidência foi encontrada em um livro de fotografias
da diva, onde ela aparecia ao lado de um escritor de
nome "Roberto Bolaño". Abaixo da foto,
a seguinte declaração de Marilyn: "O
realizador dos piores programas mexicanos. Todo o resto
ele sabe fazer muito bem..."
E tome prêmios!
Chespirito desmente a história. A verdade é
que de fato existiu um diretor de cinema mexicano chamado
"Roberto Bolaño" (e não Bolaños).
E, ele sim, foi amante de Marilyn Monroe e não
o Roberto Bolaños.
Mais ainda que gostar muito das mulheres, Chespirito
é um homem feminista. Sempre viveu rodeado de
mulheres valentes e cultas: sua mãe, sua tia,
sua esposa... Por esse motivo, nos seus programas, as
mulheres são sempre mais inteligentes que os
homens. A Chiquinha,
sempre mais esperta que os meninos. A Dona
Florinda e sua valentia e ousadia. Dona
Clotilde, uma solteirona que se sustenta sozinha.
Além da mulher, Florinda,
e dos seis filhos, Chespirito tem 12 netos. Hoje, vive
feliz com Florinda
em Cancún, na verdadeira "mansão
do Chaves"
que muitos pensam que existe dentro do barril.
Os sinais dos tempos marcaram seu rosto e seu corpo.
Já não ouve bem com o ouvido direito.
Sua saúde ficou um pouco comprometida com o terrível
hábito de fumar, que felizmente largou de um
dia para o outro. Mas continua rindo de si mesmo. E
sua vitalidade permanece intocável e completa.
É um homem amável. E sempre "jovem
ainda".
Continua escrevendo o que quer, só que livre
da pressão e dos prazos cotidianos da televisão.
Mesmo assim, com disciplina, senta-se diariamente na
frente do computador. Acorda cedo. Escreve poemas. À
tarde, faz a sesta. Escreve sua biografia. E ainda uma
peça de teatro, "La reina madre", comédia
musical que conta a história da mãe de
seu ídolo Charles Chaplin.
Com anteninhas de vinil! - La
noche de Chespirito - F.Cuevas/Univision Online
Uma ou duas vezes por semana, sai para comer fora com
seus filhos e netos. À noite, vê documentários.
Não se interessa mais pelos noticiários,
que lhe provocam angústias. Às vezes,
assiste a seus próprios programas, que no México
passam 15 vezes por semana, em dois canais, com os mais
altos índices de audiência de toda televisão.
O pequeno Shakespeare, que um dia lutou box para evitar
o complexo de baixinho, também já foi
jogador de futebol profissional, mas teve que parar
devido ao baixo peso. O grande homem, que estudou engenharia
e que, um dia, sem querer querendo, começou a
escrever. Nem em seus maiores sonhos, este homem imaginou
o sucesso mundial que um dia alcançariam seus
textos e personagens.
"Isso,
isso, isso!" - Divulgação
Este homem é Roberto Gómez Bolaños.
Nosso ídolo.
Nosso herói.
Nosso menino.
Este homem é Chespirito.