CHESPIRITO
Biografia
"Estou muito agradecido a tudo o que a vida me deu e, por isso, desejo compartilhar com meus amigos a minha história desde o princípio até chegar a este momento" (Chespirito)
 "Isso, isso, isso!" - Divulgação

Apesar de ter nascido quase 30 anos antes, a história de "Chespirito" começou em 1957, precisamente com o sucesso do filme "Los Legionarios". Roberto Gómez Bolaños escreveu um roteiro tão bom que foi comparado a Shakespeare pelo diretor Augustín Delgado. Somente a partir daí é que Bolaños passaria a ser reconhecido pelo nome artístico, o mesmo apelido dado por Augustín: "Shakespearito", que significa "pequeno Shakespeare", por causa da baixa estatura: 1,60m. Porém, o Bolañitos, o nosso pequeno Bolaños, veio ao mundo menor ainda em 1929, aniversariando dia 21 de fevereiro. Pisciano e mexicano "da gema" (Cidade do México).

Em 1928, Elsa Bolaños Cacho Aguilar engravidou pela segunda vez do marido Francisco Gómez Linares. O casal já tinha um filho de dois anos, também Francisco. A veia artística sempre se sobressaiu na família dos Linares. Francisco Gómez era um famoso pintor e desenhista. Ilustrava importantes jornais e revistas de sua época. Nos anos 20, ganhou fama por pintar um quadro da esposa de Emilio Portes Gil, então presidente do México. Francisco Gómez também gostava de atuar, mas só o fazia às escondidas... Naquele tempo, atores eram muito mal vistos pela família e pela sociedade (hoje, de certo modo, ainda são, mas nem se compara, claro). Em 1935, Seu Fransisco morreu precocemente, deixando a mulher e três filhos ainda crianças: Francisco, Roberto e Horácio, respectivamente com oito, seis e cinco anos de vida.
 Cadê as anteninhas?

"Seu papai foi pro céu", disseram a Roberto e a seus irmãos. "Eu não entendia muito bem, ainda que me explicassem", lembra Chespirito. E conta que, onde moravam, havia um pequeno jardim na frente de casa. Ali, ele ficou meses esperando o seu pai voltar. Até que se deu conta de que não seria assim.

 Bolaños de umbigo de fora!

Aos 32 anos e com três filhos pequenos, Elsa Bolaños garantiu o pão de cada dia com muito trabalho e esforço redobrado. Conseguiu construir um pequeno edifício de dois andares: o térreo com áreas comerciais e o andar de cima, com três apartamentos residenciais. Foi morar com seus filhos em um deles e alugou os outros dois. Ou seja, Chespirito viu sua mãe cobrando aluguel dos inquilinos. Será que isso o influenciou? Será que alguém chegou a dever 14 meses de aluguel à Dona Elsa? É provável, pois, num determinado momento, o dinheiro não foi suficiente e ela teve que vender tudo. Para piorar a situação, o banco ainda ficou com boa parte do imóvel. E a família Bolaños foi morar numa das oficinas comerciais.

 No colo do pai, Francisco,
e com o irmão Francisco

"Minha mãe colocou uma cortina bem baratinha para cobrir a construção de ferro.", conta Roberto. "A gente tomava banho com água fria... Que era horrível! Não tinha energia elétrica... Mas minha mãe era tão sensacional que eu nunca me dei conta de que éramos pobres. Nunca me comprou uma bicicleta ou um trem elétrico, mas nunca me faltou uma bola. Eu fui muito feliz. Ela se matava de tanto trabalhar, disso eu fiquei sabendo depois."

Certa vez, em algum Natal, Roberto e seus irmãos foram procurar presentes na árvore. Mas nada havia. Depois, foram para a casa da tia-avó, Eva, que vivia a uma quadra e meia, com esperança de encontrar algo para eles. Eva foi dura bem direta: "Papai Noel não existe. Era seu pai. E como agora ele não está, não há mais dinheiro e, portanto, também não há brinquedos." Elsa Bolaños interveio: "Como que não há? Venham!". Levou os filhos a um centro comercial e comprou pequenos brinquedos. "Minha tia Eva ficou uma fera. Disse que estávamos gastando um dinheiro que minha mãe não podia gastar, pois estava juntando para comprar um terreno. Essa era minha mãe!", emociona-se Chespirito. Essa doce história de Natal e de família deu origem ao "Poema a mi Madre", que Chespirito escreveu em homenagem à sua tão querida mãe e diz assim no final: "...para mim, mãezinha, você é a Noite Boa." Florinda, mulher de Chespirito, chora até hoje quando lê esses versos.

 Com os dois irmãos e a mãe Elsa

Elsa Bolaños sempre garantiu também a educação de seus três filhos. Ela mesma tinha boa formação. Já tinha vivido em Nova Iorque durante a Revolução Mexicana e falava inglês perfeitamente. Trabalhava como secretária bilíngüe na empresa Petróleos Mexicanos.

Roberto Gómez Bolaños concluiu o segundo grau e matriculou-se no curso de engenharia da Universidade Nacional Autônoma do México. Estudou alguns anos, mas não chegou a concluir. Ele conta que nunca foi um aluno muito aplicado, mas também não era nível "Quico". Isso até descobrir as letras e apaixonar-se por elas. Por isso, foi contratado pela agência de publicidade D'Arcy quando tinha apenas 22 anos. Lá, rapidamente se destacou por sua mente criativa. E começou a escrever programas para rádio e televisão durante os anos 50. Seu texto fazia rir e isso chamou a atenção da emissora de TV TIM (Televisión Independiente de México). Com o fim da segunda guerra mundial em 1945, os programas de comédia despontaram dos anos 50 e 60, no rádio e logo no início da era da TV. Rir era a grande moda da época! No México, as grandes emissoras eram a TV TIM (Canal 8) e a tal de Televisa (Canal 2). Mas o 8 viu Roberto primeiro!

 Roberto também foi futebolista, mas não vivia descendo lenha...

Aos 28 anos, o jovem Roberto virou "Chespirito" ao escrever seu primeiro brilhante roteiro para cinema ("Los Legionarios"), que ganhou vários prêmios. A partir daí, não parou mais de escrever: durante úma década, até 1967, escreveu, em média, três filmes por ano. Alguns roteiros já anunciavam o que estava por vir. Observem: "El dolor de pagar la renta" (A dor de pagar o aluguel, Seu Madruga que o diga!); "Dos locos en escena" (Dois loucos em cena, já revelando a admiração do roteirista por O Gordo e O Magro); "Los Astronautas" (que vão pelo céu capturando os planeeetas...); "Dos tontos y un loco" (total: Três Patetas); "Los invisibles" (Os invisíveis, será que tomaram a bebida de horrível sabor com os três pêlos de gato ou beberam verniz invisibilizador?); "Buenos dias Acapulco" (ou seria Guarujá? Boa noite, vizinhança!); "La batallha de los pasteles" (A batalha dos bolos, comédia pastelão na cabeça, ou melhor, na cara!); "Detectives o ladrones" (Detetives ou ladrões, não é que ele adora esse tema?).

 No dia de sua formatura

Pelo humor marcante contido nos roteiros, em 1960 a TV TIM contratou Chespirito, que escreveu os dois programas de maior audiência da emissora: "Cómicos y Canciones", com os famosos comediantes Viruta e Capulina, e "El Estudio de Pedro Vargas". Em 66, o então mais consagrado comediante mexicano, Mario Moreno, o Cantinflas, convidou Chespirito para escrever o roteiro do programa que se chamaria "El Estudio de Cantinflas", aproveitando o sucesso do "El Estudio de Pedro Vargas". Infelizmente, o projeto não foi adiante por causa de problemas com o patrocinador e, como diria o Quico, "não deu".

E se, para o Brasil, 1968 foi "o ano que não acabou", para Chespirito, tampouco. Enquanto a ditadura envergonhava o Brasil, no México, Chespirito conseguia o seu primeiro espaço próprio na televisão: "El ciudadano Gómez". Desde então nasceram alguns personagens e diálogos que ficariam para sempre marcados na história do humor. Até então, Chespirito não pensava em atuar. No entanto, felizmente e por falta e recusa de bons atores, ele mesmo foi obrigado a entrar em cena. E nem ele mesmo contava com sua astúcia. Saiu-se tão bem que começou a inventar personagens que ele mesmo interpretaria - e com o maior prazer. Com isso, o espaço de seu programa foi só aumentando. E a audiência? Também. Aumentou tanto, mas tanto, que Chespirito "estourou".

 Nos anos 60, sua estréia na TV, com Viruta e Capulina

O pequeno grande escritor, agora já também ator, ganhou meia hora só para ele todos os sábados (precise ou não precise!), dentro do famoso programa humorístico "Sábados de la Fortuna". Além de "El ciudadano Gómez", Chespirito interpretou pela primeira vez um personagem criado por ele e para ele: Doutor Chespirito Chapatin, que estreou no quadro "Los supergenios de la mesa cuadrada" (Os Supergênios da Mesa Quadrada, parodiando o clássico "Os Cavaleiros da Távola Redonda"). Los supergenios e Dr. Chapatin fizeram tanto sucesso que conquistaram o público para sempre.

 Com o Polegar Vermelho

No princípio, Dr. Chapatin não era médico (ele ainda teria muitos anos de vida para estudar medicina), mas sim um doutor universitário que participava de uma mesa de crítica aos grandes intelectuais da época, com quem sempre brigava. Para interpretar os demais personagens, Chespirito escolheu a dedo três atores: Ramón Gómez Valdés y Castillo, Rubén Aguirre Fuentes e María Antonieta de las Nieves (a Chiquinha).

Ramón era irmão mais novo de Tintán Valdés, um dos maiores comediantes mexicanos do século XX. Chespirito escrevia roteiros para os filmes de Tintán, nos quais Ramón também atuava. Em 1968, Ramón já tinha 20 anos de experiência em filmes e já era reconhecido como grande ator de cinema mexicano. Chespirito, sempre bom observador, descobriu o talento de Ramón para a comédia e convidou aquele que seria o eterno Don Ramón, ou Seu Madruga, para os brasileiros. Nos Supergenios, ele interpretava um bêbado. Nem precisa dizer o quanto isso ficou engraçado, né?

 Galã! Boneco!

Rubén Aguirre era locutor de rádio, dono de uma voz invejável. Também era ator e se destacava nas radionovelas. Foi o primeiro de todos a atuar com Chespirito, antes ainda de Supergenios. A altura exagerada de Rubén fazia um bom contraste com a baixa estatura de Chespirito e isso funcionava bem para a comédia. Por isso, Chespirito não pensou duas vezes em convidar Rubén para atuar em Supergenios como o professor Rubén Aguirre Girafales! Isso mesmo, podemos dizer que o professor Girafales foi o primeiro personagem de Chaves a ser criado. A partir daí Rubén e Chespirito formariam uma dupla que se consagraria na TV. O Alto e O Baixo mais famosos do mundo, no mesmo estilo de O Gordo e O Magro.

 Filmagem dos anos 70

A quarta atriz de Supergenios era uma jovem de apenas 18 anos que sonhava em ser vedete. Quando pequena, digo, quando menor ainda, iniciou a carreira artística dublando personagens famosas de desenho animado e outras atrizes mirins americanas. Sua voz chamou a atenção de Chespirito. Ela queria atuar em novelas como a mocinha que fazia o público chorar, mas ele a tirou deste caminho ao convidá-la para fazer humor. Baixinha e talentosa, ela logo fez o público rir e se encantar. Apresentava os Supergenios e lia as cartas do programa. E, a partir daí, formou uma dupla imbatível com Chespirito, principalmente com o surgimento de la Chilindrina, a Chiquinha (1971), personagem que a consagrou mundialmente e que ela nunca mais deixou de vestir.

1970. Com o enorme sucesso de suas apresentações, Chespirito ganhou um programa próprio na TV TIM: CHESPIRITO, toda segunda-feira, às 20h - horário nobre! Em uma hora, ele podia fazer o que quisesse. Estava livre para criar os mais variados quadros. Escrevia todos e atuava em todos. Num belo dia, escreveu o roteiro de um super-herói, ou melhor, um anti-herói, atrapalhado, desengonçado e fracote. E abriu testes para ver quem o interpretaria. Os maus atores não deram conta e os "bons" atores simplesmente recusaram o papel. Sem mais opções, o próprio Chespirito vestiu-se pela primeira vez de Chapulín, o Chapolin Colorado.

 Filmagem dos anos 80

O resultado foi tão bom que, um ano depois, Chespirito experimentou também vestir-se de criança. Aos 42 anos, interpretou pela primeira vez um menino de oito. O menino continuou com oito, mas Roberto Gómez Bolaños fez 43, 44, 45... 50... 55... 60... Vinte e cinco anos se passaram até que o tempo impôs um limite e ele parou de interpretar o Chaves, só em 1992. Se não fosse pela idade, Chespirito poderia viver o garoto até hoje, porque o personagem Chaves (e tudo o que o envolve) é parte de uma minúscula lista de realizações humana imortais. E o Chapolin? Também.

Os esquetes de Chaves e de Chapolin destacavam-se e brilhavam no programa Chespirito. Era tanto brilho que a TV TIM percebeu o quanto aquilo poderia dar retorno. E tanto o Chapolin quanto o Chaves ganharam um seriado próprio cada um, em 1973: El Chapulín Colorado e El Chavo del Ocho (O Chaves do Oito). Cada programa com meia hora de duração, completando a hora disponível às segundas-feiras, às oito da noite no Canal Oito! Aliás, o programa do Chaves chama-se oficialmente El Chavo del Ocho por causa do Canal Oito e não porque o moleque supostamente morava na casa de número oito. Essa história foi criada depois para explicar o título, já que, com a compra da TV TIM pela Televisa, a série passou a ser exibida no canal 2.

 Filmagem dos anos 90

Os dois programas foram conquistando o público e ganhando cada vez mais espaço na programação. Já nas mãos da Televisa, a poderosa emissora mexicana, os seriados começaram a ser exportados para outros países da América Latina. E o sucesso foi absurdo! De maneira que, se a Televisa é uma empresa riquíssima hoje, muito desse ouro se deve a Chespirito. Até 1979, quando os programas chegaram ao fim, já eram vistos e aplaudidos em dezenas de países. E uma curiosidade digna de Guiness Book: em todos os países por onde andou, os programas ficaram pelo menos uma vez em primeiro lugar de audiência, qualquer que fosse a emissora.

 Homenagem da Televisa aos 30 anos de Chaves e Chapolin - 2000

O que vale ressaltar é que o Brasil até então não conhecia Chaves nem Chapolin. Os dois já eram sucesso e fenômeno de audiência em toda a América Latina quando chegaram ao Brasil, bem tarde já, só em 1984... Ou seja, dez anos antes, as séries de Chespirito já estouravam em vários países de língua hispânica. Ao contrário do que muita gente pensa, portanto, Chaves não é um programa dos anos 80 e sim do início dos 70! Quem acha que 20 anos de exibição de Chaves no Brasil é muita coisa, deve aprender que, nos demais países latino-americanos, ele passa há mais de 30 anos - sempre liderando audiência. Um fenômeno mundial só comparado aos grandes clássicos do humor encabeçados por Charles Spencer Chaplin.

 Com os filhos Graciela, Cecilia, Paulina, Teresa, Marcela e Roberto Gómez

Além da vogal "o", a única diferença do Chaplin para o Chapolin está na nacionalidade. Pelo simples fato de Chespirito ser latino-americano, ele não tem o mesmo reconhecimento de Charlie Chaplin, Laurel & Hardy (O Gordo e O Magro), Os Três Patetas e Woody Allen. No entanto, não se pode reclamar, pois as senhoras estatísticas estão provando, hoje, que Chespirito é mais um grande clássico do humor mundial. Ele ultrapassou qualquer grande homem da comédia latino-americana e foi o único que chegou perto, em números comprovados (não só de audiência, mas também de vendas dos mais variados produtos e respectivos lucros), dos maiores nomes do american way of humour. Chespirito ultrapassou os mexicanos Cantinflas e Tintán Valdés. Foi muito além dos brasileiros Mazzaropi, Os Trapalhões e Chico Anysio. E viajou o mundo. Chaves já foi dublado em idioma alemão, russo, japonês, coreano, árabe, italiano... Chaves não é apenas o programa mais reprisado do Brasil, mas essas reprises de 20 anos sempre ficam ou no primeiro ou no segundo lugar do Ibope.

 Com os netos e o restande da família

O humor de Chespirito é puro, clássico e atemporal. Não é datado. Não sai de moda. Um estilo de humor que não faz mal a ninguém. Ele sempre cuidou bem disso. Considera que as pessoas necessitam de diversão da mesma forma que necessitam de comida. E assim como devem se alimentar de coisas que não fazem mal, também devem se divertir com coisas saudáveis. Chespirito sempre usa essa comparação, com razão de seu orgulho, pois é enorme a responsabilidade de um homem que é visto por milhões de pessoas de diferentes países, culturas, idades... Certo dia, o presidente da Televisa, Emilio Azcárraga, ao se dar conta de que Chespirito era primeiro lugar de audiência em todos os países latino-americanos, foi ter com ele, bem sério: "Olha, Roberto... Um ponto de audiência equivale a um estádio Azteca e meio, com capacidade para 100 mil espectadores. Dez pontos são 15 estádios Azteca. Semanalmente, 300 milhões de pessoas te vêem. Não se sente orgulhoso? Mais que orgulhoso, deve sentir um medo terrível, porque tem responsabilidade sobre 300 milhões de pessoas. Você sabe o que eu quero dizer: temos uma arma poderosíssima nas mãos."

 Chespirito colecionou prêmios e troféus durante sua carreira

Ainda no final dos anos 70, Chespirito levou para o cinema o filme que bateu todos os recordes de bilheteria: "El Chanfle", que teve até continuação, "El Chanfle II". Bolaños era autor, diretor e ator de seus filmes, que contavam com o mesmo famoso elenco da TV, embora nada tivessem a ver com as séries. Chespirito nunca pensou em levar Chaves e Chapolin para o cinema, pois simplesmente julgava o formato incompatível. Outros sucessos de bilheteria foram: "Charrito", "Don Ratón y Don Ratero" e "Música de viento".

Na década de 90, com as últimas gravações do programa Chespirito, pôde dedicar-se mais ao teatro. Em 1992, escreveu e dirigiu a peça "11 y 12", na qual, é claro, também atuava como protagonista ao lado de Florinda Meza. Resultado: foi o espetáculo teatral que ficou por mais tempo em cartaz no México: mais de oito anos consecutivos! Ainda nesse período, Chespirito produziu dezenas de filmes mexicanos, ocupando o cargo de diretor geral da Televicine, empresa de cinema do Grupo Televisa.

Hoje, Chespirito, um homem tímido - sim, ele sempre superou sua timidez, mas sem nunca deixar de ser tímido -, escreve uma autobiografia, contada com muito humor e crítica. No livro, ele conta, por exemplo, o que aconteceu em 1977 no Chile, quando ele e sua equipe foram recebidos pelo público bem ao estilo "beatlemania". Do aeroporto até o hotel, milhares de pessoas desesperadas seguiam os atores querendo apenas vê-los de perto. A apresentação, em Viña del Mar, lotou duas vezes (manhã e tarde) um estádio de futebol com capacidade para 80 mil pessoas.

Em sua biografia, Bolaños também se recorda do contato que teve com presidentes latino-americanos. Um deles, Gustavo Díaz Ordaz Bolaños Cacho, que já foi presidente do México, era primo-irmão de sua mãe, mas a relação com o tio político não era das melhores.

 Foto oficial do casamento com Florinda Meza - 2004

"Conheci Carlos Ménem quando nem eu sabia quem era. Tiraram uma foto nossa em uma estação de rádio ou TV. E ele disse: 'Essa fotografia vai estar na Casa Rosada'", conta Chespirito. "Seus amigos disseram 'Ah, sim, acredito...' Naquela época, nem era candidato de seu partido. Até que chegou a ser presidente da Argentina. Nunca voltei a vê-lo, mas uma vez mandei um recado perguntando se a foto estava lá na Casa Rosada. Ele me mandou dizer que sim... Mas não sei".

Na Colômbia, Chespirito e seu elenco fizeram uma enorme marcha pela cidade de Bogotá, convidados pela esposa do então presidente Ayala. "Foi uma marcha que durou das nove da manhã até as sete da noite. A gente ficou em caminhões de bombeiro. Era tante gente... Parecia uma marcha política, uma revolução do povo. Todos adoradores de Chaves!".

Gómez Bolaños apoiou abertamente a candidatura do presidente mexicano Vicente Fox, inclusive gravando spots pedindo votos. Ainda que não sejam amigos próximos e tenham se visto apenas em três ocasiões, Chespirito acredita e confia em seus projetos, apesar das críticas. Acredita em sua honestidade e admira que ele seja contra o aborto. "Não gosto de política, mas com pessoas como Fox, sinto outra coisa. Não digo que são perfeitos, mas com certeza têm boas intenções".

 Lançamento do livro "El Diario de El Chavo Del Ocho" - 2005

Ao falar de Florinda Meza, seus olhos se iluminam. "Acredito que me apaixonei imediatamente por ela, mas me detive no início. Primeiro, porque era casado, algo fundamental e, segundo, porque odeio a raça de diretores e produtores que oferecem papéis a pessoas em troca de cama - e isso existe muito! É a pior coisa do mundo. Então, eu me contive. Por uns seis, sete anos, até a nossa união".

Chespirito e Florinda estão juntos há mais de 25 anos, sempre apoiando-se em seus inúmeros projetos. Ele não esconde sua intensa admiração por ela: "uma mulher inteligente e culta e que, além de tudo, dança e canta muito bem!" . Com ela, ele se sente à vontade para falar de tudo, até de futebol. "A partir de Florinda, fui sempre fiel. Não me falta nada".

 Lançamento de sua autobiografia
"Sin Querer Queriendo - MEMORIAS" - 2006

Ele sempre foi muito discreto com relação a seus outros "amores", por assim dizer. Ninguém sabe muita coisa a respeito. No entanto, foi com Graciela Fernández, sua primeira mulher, que ele teve todos os seus seis filhos: um filho, Roberto Gómez Fernández, e cinco filhas. Muitos jornalistas até hoje insistem no erro de que os filhos de Chespirito são também da Dona Florinda, quando na verdade esta nunca teve filhos.

Em certa ocasião, 'Radar', o suplemento de domingo do jornal argentino 'Página 12', publicou uma reportagem sugerindo que Roberto teve um caso no passado com ninguém menos que Marilyn Monroe. A evidência foi encontrada em um livro de fotografias da diva, onde ela aparecia ao lado de um escritor de nome "Roberto Bolaño". Abaixo da foto, a seguinte declaração de Marilyn: "O realizador dos piores programas mexicanos. Todo o resto ele sabe fazer muito bem..."

 E tome prêmios!

Chespirito desmente a história. A verdade é que de fato existiu um diretor de cinema mexicano chamado "Roberto Bolaño" (e não Bolaños). E, ele sim, foi amante de Marilyn Monroe e não o Roberto Bolaños.

Mais ainda que gostar muito das mulheres, Chespirito é um homem feminista. Sempre viveu rodeado de mulheres valentes e cultas: sua mãe, sua tia, sua esposa... Por esse motivo, nos seus programas, as mulheres são sempre mais inteligentes que os homens. A Chiquinha, sempre mais esperta que os meninos. A Dona Florinda e sua valentia e ousadia. Dona Clotilde, uma solteirona que se sustenta sozinha.

Além da mulher, Florinda, e dos seis filhos, Chespirito tem 12 netos. Hoje, vive feliz com Florinda em Cancún, na verdadeira "mansão do Chaves" que muitos pensam que existe dentro do barril.

Os sinais dos tempos marcaram seu rosto e seu corpo. Já não ouve bem com o ouvido direito. Sua saúde ficou um pouco comprometida com o terrível hábito de fumar, que felizmente largou de um dia para o outro. Mas continua rindo de si mesmo. E sua vitalidade permanece intocável e completa. É um homem amável. E sempre "jovem ainda".

Continua escrevendo o que quer, só que livre da pressão e dos prazos cotidianos da televisão. Mesmo assim, com disciplina, senta-se diariamente na frente do computador. Acorda cedo. Escreve poemas. À tarde, faz a sesta. Escreve sua biografia. E ainda uma peça de teatro, "La reina madre", comédia musical que conta a história da mãe de seu ídolo Charles Chaplin.

 Com anteninhas de vinil! - La noche de Chespirito - F.Cuevas/Univision Online

Uma ou duas vezes por semana, sai para comer fora com seus filhos e netos. À noite, vê documentários. Não se interessa mais pelos noticiários, que lhe provocam angústias. Às vezes, assiste a seus próprios programas, que no México passam 15 vezes por semana, em dois canais, com os mais altos índices de audiência de toda televisão.

O pequeno Shakespeare, que um dia lutou box para evitar o complexo de baixinho, também já foi jogador de futebol profissional, mas teve que parar devido ao baixo peso. O grande homem, que estudou engenharia e que, um dia, sem querer querendo, começou a escrever. Nem em seus maiores sonhos, este homem imaginou o sucesso mundial que um dia alcançariam seus textos e personagens.

 "Isso, isso, isso!" - Divulgação

Este homem é Roberto Gómez Bolaños.

Nosso ídolo.

Nosso herói.

Nosso menino.

Este homem é Chespirito.

Por Gustavo Berriel